16.7.13

Motociclistas e poetas, una nota sobre el FIPLIMA 2013


Affonso Romano de Sant'Anna.


Liguei a TV em Lima, Peru, e descobri que havia um desfile de milhares de motociclistas. Um assombro. Motocicletas de quase 40 marcas. Mas ocorria também ali para outra coisa: o 2º Festival Internacional de Poesia. Não é a primeira vez que motoqueiros e poetas se reúnem (sem saber) numa cidade. Uma vez, estava em Oaxaca, no México, para encontro de poetas, e não é que centenas de aficionados da Harley-Davidson, com seus blusões e distintivos, tiravam retratos, comportadinhos, em fila, diante de uma catedral!

Como dizem os mineiros, “coisa de doido, sô!”. Imaginem mais de 100 poetas de todo o mundo reunidos, por exemplo, numa noite de frio brabíssimo, falando poemas para centenas de pessoas, apinhadas num anfiteatro ao ar livre, semelhante a um teatro grego. Sair de casa, num frio desses, para ouvir poesia, ora direis, certo perdeste o senso. E, no entanto, o público estava também no vasto auditório do Teatro de la Nación, no Centro Cultural Brasil-Peru, nas universidades, bares, parques, bibliotecas etc.

Só vi coisa semelhante em Medellín, na Colômbia – outra ‘‘coisa de doido, sô!” –, que está rolando nesses dias, e que tem mais de 20 anos de existência. Desta vez, em Lima, houve um encontro entre a poesia e a música, pois, sendo centenário de Vinicius de Moraes, nossa embaixada no Peru e o CCBP promoveram show de Maria Creuza interpretando Vinicius. Essa mulher histórica saiu da Bahia pelas mãos de Vinicius e deve estar agora em Madri, repetindo o show em que o público cantava de memória as canções do bardo de Ipanema e adjacências.

Os jornais brasileiros, alugados pela Flip (aquela de Paraty), não devem ter dado notícia alguma. Pena. Já que o Brasil era o país homenageado, estavam em Lima nove poetas brasileiros (além deste cronista que vos informa): Iacyr Anderson, Alexandre Marino, Fabrício Marques, Fabrício Corseleti, Sergio Cohen, Luiz Silva (Cuti), Angélica Freitas, Camila do Valle e Lucila Nogueira. E uma coisa curiosa e informativa para quem lá não esteve: a constatação de como Clarice Lispector está virando a escritora brasileira mais citada e lida no mundo. Quando a poeta Doris Morimasoto foi ler seus poemas, referiu-sa a Clarice, nada mais, nada menos, como “la mayor escritora del mundo”. Converso com a novelista argentina Ana Guillot e ela revela como Clarice marcou sua vida e obra. Abro o livro do poeta uruguaio Rafael Courtoise e encontro um poema dedicado a Clarice.

E outra coisa: o poeta Ledo Ivo é celebridade fora do Brasil. No programa há uma foto de Ledo Ivo ao lado de Antonio Cisneros. Desgraçadamente, como se diz em espanhol, Ledo e Cisneros faleceram recentemente. E o 2º Festival Internacional de Poesia decidiu homenageá-los ao lado de outros poetas que nos deixaram.

É curioso isto. Existe uma família imponderável de poetas. Nos referimos a Homero, Baudelaire, Whitman, Fernando Pessoa ou Rilke como irmãos ou tios. Não é à toa que os poetas, volta e meia, vão às sepultura e às obras de outros poetas para reverenciá-los, retomar seus versos, dar vida à própria literatura. Pois foi apresentado um vídeo em homenagem aos poetas que partiram. Vocês podem compatilhar desse momento através das imagens e da bela canção na voz de Cesar Calvo, no YouTube.

Uma homenagem especial foi feita por meio de um vídeo dedicado a Antonio Cisneros. Aí apareço lendo um de seus poemas. Lembro-me de tê-lo trazido ao Brasil, nos anos 1990, para se apresentar na Biblioteca Nacional. Fizemos até um almoço de poetas para ele, num restaurante do Rio.

É isso, minha gente: os poetas e motociclistas se reúnem aqui e ali. A diferença é que o ruído das motos se esvai no tumulto da cidade, mas o canto dos poetas nos guia através da vida e da história.Motociclistas e poetas

Publicação: 14/07/2013 04:00

Liguei a TV em Lima, Peru, e descobri que havia um desfile de milhares de motociclistas. Um assombro. Motocicletas de quase 40 marcas. Mas ocorria também ali para outra coisa: o 2º Festival Internacional de Poesia. Não é a primeira vez que motoqueiros e poetas se reúnem (sem saber) numa cidade. Uma vez, estava em Oaxaca, no México, para encontro de poetas, e não é que centenas de aficionados da Harley-Davidson, com seus blusões e distintivos, tiravam retratos, comportadinhos, em fila, diante de uma catedral!

Como dizem os mineiros, “coisa de doido, sô!”. Imaginem mais de 100 poetas de todo o mundo reunidos, por exemplo, numa noite de frio brabíssimo, falando poemas para centenas de pessoas, apinhadas num anfiteatro ao ar livre, semelhante a um teatro grego. Sair de casa, num frio desses, para ouvir poesia, ora direis, certo perdeste o senso. E, no entanto, o público estava também no vasto auditório do Teatro de la Nación, no Centro Cultural Brasil-Peru, nas universidades, bares, parques, bibliotecas etc.

Só vi coisa semelhante em Medellín, na Colômbia – outra ‘‘coisa de doido, sô!” –, que está rolando nesses dias, e que tem mais de 20 anos de existência. Desta vez, em Lima, houve um encontro entre a poesia e a música, pois, sendo centenário de Vinicius de Moraes, nossa embaixada no Peru e o CCBP promoveram show de Maria Creuza interpretando Vinicius. Essa mulher histórica saiu da Bahia pelas mãos de Vinicius e deve estar agora em Madri, repetindo o show em que o público cantava de memória as canções do bardo de Ipanema e adjacências.

Os jornais brasileiros, alugados pela Flip (aquela de Paraty), não devem ter dado notícia alguma. Pena. Já que o Brasil era o país homenageado, estavam em Lima nove poetas brasileiros (além deste cronista que vos informa): Iacyr Anderson, Alexandre Marino, Fabrício Marques, Fabrício Corseleti, Sergio Cohen, Luiz Silva (Cuti), Angélica Freitas, Camila do Valle e Lucila Nogueira. E uma coisa curiosa e informativa para quem lá não esteve: a constatação de como Clarice Lispector está virando a escritora brasileira mais citada e lida no mundo. Quando a poeta Doris Morimasoto foi ler seus poemas, referiu-sa a Clarice, nada mais, nada menos, como “la mayor escritora del mundo”. Converso com a novelista argentina Ana Guillot e ela revela como Clarice marcou sua vida e obra. Abro o livro do poeta uruguaio Rafael Courtoise e encontro um poema dedicado a Clarice.

E outra coisa: o poeta Ledo Ivo é celebridade fora do Brasil. No programa há uma foto de Ledo Ivo ao lado de Antonio Cisneros. Desgraçadamente, como se diz em espanhol, Ledo e Cisneros faleceram recentemente. E o 2º Festival Internacional de Poesia decidiu homenageá-los ao lado de outros poetas que nos deixaram.

É curioso isto. Existe uma família imponderável de poetas. Nos referimos a Homero, Baudelaire, Whitman, Fernando Pessoa ou Rilke como irmãos ou tios. Não é à toa que os poetas, volta e meia, vão às sepultura e às obras de outros poetas para reverenciá-los, retomar seus versos, dar vida à própria literatura. Pois foi apresentado um vídeo em homenagem aos poetas que partiram. Vocês podem compatilhar desse momento através das imagens e da bela canção na voz de Cesar Calvo, no YouTube.

Uma homenagem especial foi feita por meio de um vídeo dedicado a Antonio Cisneros. Aí apareço lendo um de seus poemas. Lembro-me de tê-lo trazido ao Brasil, nos anos 1990, para se apresentar na Biblioteca Nacional. Fizemos até um almoço de poetas para ele, num restaurante do Rio.

É isso, minha gente: os poetas e motociclistas se reúnem aqui e ali. A diferença é que o ruído das motos se esvai no tumulto da cidade, mas o canto dos poetas nos guia através da vida e da história.

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